O problema de ter uma coluna num periódico como este é que
de tempos em tempos a gente acaba se repetindo.
Com certeza, ao longo de todos esses anos que escrevo
aqui, com certeza, já me repeti, ou seja, escrevi textos idênticos só que com
outras palavras. Isso não é proposital não, é involuntário, é sem querer mesmo.
Pois uma das minhas fontes primeiras de “inspiração” é escrever sobre o que me
incomoda.
Eu gosto de escrever sobre o que me incomoda, não por
masoquismo, pois eu acredito no poder transformador da palavra e se eu uso a palavra escrita para modificar
algo que me causa incômodo eu posso modificar o mundo. Certo? Errado! Do que
adianta usar a palavra escrita se pouquíssimos o lê, não só por não saber ler,
mas não querer ou desejar ler (analfabeto funcional).
Uma coisa que particularmente me incomoda é a maneira como
o povo da região do Seridó potiguar trata o verde.
Veja bem, estou me referindo ao povo Seridó, não
especificamente o curraisnovense ou caicoense.
O verde, digo, a vegetação em geral, subconscientemente é
visto quase como inimigo. E se está linda e viçosa, não faltam elogios e
“glórias a Deus”, mas que nada, é tudo jogo de cena, pois lá no fundo do coração
o que se quer é tudo o chão.
Basta ver como são feitas as “podas” das árvores por aqui,
se deixa praticamente no toco, quando não se podem ver árvores com décadas de
existência, sendo derrubado pelos motivos mais fúteis, tipo ‘cai folha na minha
calçada’ ou ‘está desgraçando o calçamento’ ou ‘’tá fazendo sombra pro carro do
vizinho’ ou ‘pra não dar abrigo pra ladrão’ e outras mil bobagens mais.
Pra mim, esse sadismo seridoense contra o verde beira as
raias do revoltante, pois quando não deixam no toco, ou derrubam de vez, também
há caso que ainda colocam óleo quente no caule que é “pra matar mesmo”.
Veja bem, a equação é simples, e eu, pra simplificar, vou
deixá-la mais simples ainda (e me desculpem a redundância): sem árvores, sem
oxigênio e sem oxigênio, sem chuva e sem água. E se a falta de chuva e a
consequente crise hídrica é grave no resto do Brasil, inclusive no Estado
de São Paulo, e no “Sul maravilha”, no
Seridó é evidentemente pior, principalmente pela sua geografia. Com certeza,
estas pessoas que acabam com suas árvores pelos mesmos motivos fúteis que
relacionei acima são as mesmas que com certeza reclamam dos açudes secos.
Vários estudos sérios apontam que a região do Seridó
potiguar é a que mais rapidamente caminha para virar um deserto dentro das
próximas décadas, e, mais notadamente, a área correspondente ao Município de
Currais Novos é onde este processo de desertificação está mais adiantado.
Então nesta luta inglória contra o verde, contra uma pobre
árvore que “levantou” um calçamento, contra um galho cujas folhas secas sujam
incomodamente as calçadas, essa luta do seridoense para por abaixo tudo que
“pé-de-pau”, só tem um perdedor: nós mesmos.
Pobres almas abestalhadas, suicidando-se lentamente.
A continuar desse jeito, além do fim do verde, não vai ter
Santana nenhuma que faça chover por estes sertões.
Pois é, eu sei, já escrevi antes contra o abate
indiscriminado de árvores, já fiz protestos, já falei, mas parece que o poder
da palavra é mitigado, principalmente num chão de tanto e muitos iletrados,
cuja palavra não representa absolutamente nada.
Mas quem sabe desta vez, e isto eu espero, com esse texto
singelo, despido de pudores literários ou mesmos estéticos atinja algum coração
minimamente sensível a questão ecológica estas palavras reverberem
Indignar-me é o que resta, e expressar esta indignação é o
que farei, pelo menos enquanto ainda houver democracia neste nosso país.
E quem não gostar não leia, vire a página, vá pra frente,
fique ignorante, derrube uma árvore, fique sem água, passe sede.