Rádio CN Agitos - A rádio sem fronteiras!!!

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

O Brasil no Tabuleiro do Jogo do Mundo

Certo dia, o meu grande amigo Zandro chegou lá no meu local de trabalho e me jogou uma cópia Xerox de uma reportagem da revista de Veja de 14 de julho de 2010, acrescentando provocativamente: “... quero ver você defender o seu governo depois de ler isto...”.
Então comecei a ler a tal reportagem, muito embora soubesse que essa revista não tem mais a credibilidade de outrora, se é que algum dia já teve qualquer credibilidade, pois a postura editorial da Veja e do Grupo Abril é tão parcial e tendenciosa que chega a ser cômica. Mas por curiosidade e também por consideração ao amigo, li a tal matéria.
Nela, certa jornalista, Ana Cláudia Feitosa, com a ferocidade de um cão raivoso latindo avidamente enquanto escorre babas de ira critica a posição política do Itamaraty em se aproximar de pequenos países africanos, alegando em síntese que estes não são democráticos, expelindo rancor em prol de uma liberdade e democracia que pouco consegue definir.
O argumento simplório da revista não mostra que no jogo diplomático internacional existem mais mistérios e entrelinhas do que pode imaginar a nossa vã filosofia.
Não vejo os que criticam o posicionamento do Itamaraty no tabuleiro do jogo político mundial, criticar com a mesma veemência a política americana, nem o “American Way of Life” quando este também ataca, apóia ou financia sanguinárias guerrilhas de direita na África e na Colômbia.
Quando vi a foto de Guillermo Fariñas, que ilustra a dita reportagem, só me lembrei das fotos mais tristes e chocantes das crianças famintas na Etiópia dos anos 1980. Lembrei-me que os rebeldes do Deserto de Ogaden (apoiados exclusivamente pelos EUA) ‘gostavam’ de roubar cargas com ajuda humanitária só para ter o “prazer” de ver o povo passar fome e desestabilizar o governo etíope de então, ligado ao grupo dos não-alinhados.
E nem precisa ir muito longe, no tempo e no espaço, para detectar incongruências na política externa do Tio Sam, pois todos, eu disse todos, os “ridículos tiranos da América católica” (parafraseando Caetano Veloso), inclusive do nosso Brasil 1964-1985, foram bancados e lastreados pelo “maior defensor do mundo livre”, os EUA .
Então embarcar nessa “viagem” de atitude moral, no campo das relações diplomáticas, se não for ridículo, é no mínimo risível.
O Brasil faz bem em ocupar os espaços em branco no mundo, nisso concordo com o ex-ministro do desenvolvimento, Luis Fernando Furlan, Essa é a estrada dos tijolos dourados que temos que percorrer para nos tornarmos uma potência. Se não o fizermos, outros o farão. A China está fazendo isso agora, as potências decadentes do velho mundo (França, GB, Alemanha) já o fizeram, os EUA ainda o fazem. Então, por que não nós?
Mas aí, alguém pode argumentar: “esses países africanos são insignificantes”. Não importa. Espaços vazios existem para ser preenchidos, seja a Guiné Equatorial, ou a Jamaica, ou Santa Lúcia, ou a Suíça ou a França. Temos que tirar dividendos políticos, os dividendos econômicos vêm no rastro, temos que ser pragmaticamente frios como disse o chanceler Celso Amorim (que não é do PT).
O “isolacionismo” pregado pelos conservadores brasileiros mais parece com viralatismo com complexo de inferioridade.
Além do mais, não vou atacar, nem “cuspir no prato” de um modelo de Estado que acho mais justo e equânime, se o modelo de estado que NÃO acho considero justo nem equânime faz igual ou pior.

domingo, 25 de julho de 2010

Carta de uma professora portuguesa para Maytê Proença

Minha grande amiga, a poetisa norte-rio-grandense Maria José Gomes (nossa Eme Gomes) me mandou recentemente um e-mail recheado de indignação me informando que uma certa professora portuguesa, a Sra. Mafalda Carvalho, difundiu uma carta aberta na Internet falando ofensas ao nosso Brasil. O motivo dessa celeuma toda seriam declarações mal interpretadas da atriz brasileira Maytê Proença sobre Portugal e o povo português. Contudo, a reação da “doutora” Malfalda, buscando atingir Maytê Proença, “respingou”, mesmo de longe em todo o povo brasileiro. Leiam trechos da carta da “lente” portuguesa e a nossa resposta logo abaixo, e digam se estamos certos ou errados:
"Exma. Senhora:
Foi com indignação que vi a ‘peça cómica’ que fez em Portugal e passou no programa Saia Justa em que participa. Não que me espante que o tenha feito – está à altura da imagem que há muito tenho de si, pelo que me tem sido dado ver pelos seus desempenhos – mas sim pelo facto da TV Globo ter permitido que tal ignorância fosse para o ar.
Só para que possa, se conseguir, ficar um pouco mais esclarecida: A ‘vilazinha’ de Sintra é património da Humanidade, classificada pela UNESCO e unanimemente reconhecida como uma das mais belas e bem preservadas cidades históricas do mundo;
Em Portugal, onde existem pessoas que olham para o mouse do seu computador como se de uma capivara se tratasse, foi onde foi inventado o serviço pré-pago de telefones móveis (os celulares) – não existia nenhum no mundo que sequer se aproximasse e foi também o que inventou o sistema de passagem nas portagens (pedagios, se preferir), sem ter que parar – quando passar por alguma, sem ter que ficar na fila, lembre-se que deve isso aos portugueses.
É um dos países do Mundo com maior taxa de penetração de computadores e serviços de internet em ambiente doméstico. É o único país do mundo onde TODAS as crianças que frequentam a escola têm acesso directo a um computador (no próprio estabelecimento de ensino) – e em Portugal TODAS as crianças vão à escola... Muitas delas até têm um computador próprio, para seu uso exclusivo, oferecido ou parcialmente financiado pelo Ministério da Educação – já ouviu falar do Magalhães? É natural que não... mas saiba que é uma criação nossa, que está a ser adquirida por outros países. Recomendo-o vivamente – é muito simples e adequado para quem tem poucos conhecimentos de informática.
Somos tão inovadores em matéria de utilização de tecnologia informática e web nas escolas, que o nosso caso foi recomendado por especialistas americanos, como exemplo a seguir, a Barack Obama, que é só o Presidente dos Estados Unidos – ao Sr. Lula da Silva tal não seria oportuno, porque ele considera que a Escola não é determinante no sucesso das pessoas (e, no Brasil, a julgar pelo próprio, tem toda a razão).
A internet à velocidade de 1 Mega, em Portugal há muito que é considerada obsoleta – eu percebo que não entenda porquê, porque no Brasil é hoje anunciada como o grande factor diferenciador a transmissão por cabo, que já não nos interessa. Já estamos noutra – estamos entre os países do mundo com a rede de fibra óptica mais desenvolvida. E nesse contexto 1 Mega é mesmo uma brincadeira.
O ditador a que se refere – o Salazar – governou, infelizmente, ‘mais de 20 anos’, mas para a próxima, para ser mais precisa, diga que foram 48 (INFELIZMENTE, é mais do dobro de 20). Ainda assim, e apesar do muito dano que nos causou a sua governação, nós, portugueses, conseguimos em 35 anos reduzir praticamente a ZERO a taxa de analfabetos e baixar para cifras irrisórias o nível de mortalidade infantil e de mulheres no parto, onde estamos entre os melhores do mundo.
Criar uma rede viária que é das mais avançadas do mundo – em Portugal, sem exceder os limites de velocidade e sem correr risco de vida, fazemos 300 km em duas horas e meia (daria tanto jeito que no Brasil também fosse assim!).
Melhorar muito o nível de vida das pessoas, promovendo salários e condições de trabalho condignos. Temos ainda muito para fazer nesta matéria, mas já não temos pessoas fechadas em elevadores, cuja função é apenas carregar no botão do andar pretendido – cada um de nós sabe como fazê-lo e aproveitamos as pessoas para trabalhos mais estimulantes e úteis; também já não temos trabalhadores agrícolas em regime de escravatura – cada pessoa aqui tem um salário, não trabalha a troco de um prato de comida.
Colocar-nos na vanguarda mundial das energias renováveis, menos poluentes, mais preservadoras do planeta; enquanto uns continuam a escavar petróleo, nós estamos a instalar o maior parque de energia eólica do mundo (é a energia produzida a partir do vento).
Poderia também explicar-lhe quem foi Camões, Fernando Pessoa, etc., cujos túmulos viu no Mosteiro dos Jerónimos, mas eles merecem muito mais.
Ah!, já agora, deixe-me dizer-lhe também que num ponto estou muito de acordo consigo: temos muito pouco sentido de humor. É verdade." Mafalda Carvalho - Professora Doutora da Universidade de Coimbra
"li o texto e, sinceramente não vi nada de tão ofensivo ao povo brasilerio como um todo, por outro lado, a cidadã lusitana pegou pesado, e muito, com a própria Maitê ( detalhe, dona de um sobrenome "altamente" português: Proença ).
discordo só de uma coisa. O item 7 da introdução da carta diz que não temos o direito de reclamar por estarmos num declínio moral. Temos o direito de reclamar sim, desde que atinja de fato a nossa moral, e se temos uma moral "flexível" isto é culpa tão-somente de nossa colonização portuguesa, que ao invés da cultura do trabalho e desenvolvimento que a colonização anglo-saxã legou aos EUA, por exemplo, nos deu uma cultura da acomodação, da preguiça e da corrupção.
Se somos assim, a culpa é "deles"!

Por outro lado, até bem pouco tempo, mais ou menos uns 20 anos atras, Portugal era de fato o país mais atrasado do Velho Mundo. Não tinha indústria, a agricultura era fraca, não tinha estradas, nem mesmo fornecimento de energia elétrica decente, além do que tinha altíssimos índices de ANALFABETISMO e desemprego. Tanto que Juca Chaves cunhou aquela famosa frase:"...quando eu saio em turnê pelo exterior primeiro vou a Portugal e depois eu vou para a Europa..."
nesse tempo, de 'facto', Portugal tinha um desenvolvimento mais próximo ao da Nicarágua do que o da França.

Portugal só veio a mudar, e se desenvolver, quando entrou na União Europeia, e isso também é 'facto'.

a União Europeia adota uma política de nivelamento dos países que a integram pois sabe que isso é um fator de inibição da imigração ilegal. Por exemplo, um trabalhador português que se sujeita a receber um salário menor, por conta do desemprego no seu país, não imigraria para a Bélgica, e "tomaria" o emprego de um trabalhador belga, muito mais qualificado e que exigiria um salário maior.

por isso, a União Europeia injetou, e injeta, milhões em Portugal, Grécia e Irlanda (os três países mais pobres da Europa) justamente para "igualar" o nível de desenvolvimento e evitar a imigração.

Portugal só tem o desenvolvimento descrito na carta da Sra. Mafalda Carvalho por conta de duas palavrinhas mágicas: UNIÃO EUROPEIA.

alias, os contribuintes alemãs, finlandeses e dinamarqueses têm um desprezo enorme com os lusos, pois sabem que são os seus impostos e o seu trabalho que sustentam um bando de portugueses inúteis e preguiçosos.

agora suponhamos, apenas suponhamos, que de uma dia pra noite a União Europeía se acabe. Resultado? Em poucos anos Portugal voltaria a ser o charco atrasado da Europa.

e isso também é 'facto', ora pois pois..."

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Um burgo num mundo paralelo

Eis que surge dum vasto planalto
Num mundo paralelo
Um burgo espalhado
Numa grande campina
Campina Grande

Reencontrar Campina Grande
É como encontrar uma amante que não nos quer,
Um misto de flerte relutante com desejos irrealizados.

Reencontrar Campina Grande
É rever suas ruas de infâncias perdidas, adolescências eternas
Velhices etéreas, vidas pedidas
E um pouco mais de quase nada

Reencontrar Campina Grande
É mesmo se achar,
Rimas sem métrica
Versos sem ritmo
Águas espraiadas
Bueiros abertos
N’alguma esquina deserta
Dum recanto qualquer da memória

Reencontrar Campina Grande
De veias, mentes, sorrisos (amarelos) abertos
Como sempre
É vendo a cada momento em cada movimento
Não se importando onde se estar
Em seus açudes urbanos, praças, avenidas
Repletas de redemoinhos de pura alma no éter

Reencontrar Campina Grande
E dizer-lhe mais um choroso adeus,
Desculpa-me cidade antiga
Esse reencontro parece despedida
Perdoa-me se não fui um bom cidadão para contigo
O que me consola (ou aflige) é que te trago comigo
Pra onde quer que eu vá

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Um dia em que se para

Existe uma época, que se dar de tempos em tempos, em que as pessoas se irmanam, todos se congraçam. Inimigos fazem as pazes, famílias se reúnem. O comércio e a indústria liberam seus funcionários, funcionam a meia-voltagem, repartições públicas dão ponto facultativo. Parentes que moram longe voltam para as suas casas, se reúnem na sala, todos comem, bebem, ficam felizes. Errou quem pensou que essa época fosse o Natal ou a Semana-Santa, pois estamos falando da Copa do Mundo de Futebol, mais precisamente os jogos da Seleção Brasileira de Futebol.
Nenhum campeonato esportivo mexe tanto com um povo quanto a Copa do Mundo de Futebol mexe com o povo brasileiro, as pessoas vibram, param o que fazem, sabem detalhes da nossa seleção e os detalhes menores, como a escalação das seleções de países que mal se consegue localizar no mapa.
As campanhas publicitárias deitam e rolam e quase todo produto busca se relacionar com futebol ou a seleção, quando não muito os próprios jogadores ou até o técnico se tornam “astros” de propagandas.
Nada contra esse amor todo pelo futebol da seleção, muito pelo contrário, é até bonito de ver as ruas todas decorado de verde e amarelo, esse nacionalismo exacerbado, quem dera que esse “patriotismo” todo fosse não só para o futebol da seleção canarinho, mas para todos os níveis e em todos os sentidos, pois se o brasileiro comum devotasse toda essa energia, todos os anos não só para seleção, mas para tudo que é brasileiro, certamente teríamos um povo mais consciente da grandeza real que o Brasil tem.
Aliás, a única coisa que me incomoda é essa vinculação umbilical de uma mera seleção de futebol ao sentido intrínseco de nacionalidade, sem olhar ou se perceber de tudo o mais que existe ou pode existir além do futebol e que é bom, e, sobretudo, bem brasileiro, e não aproveitado. Ou seja, se a seleção vai bem, tudo no Brasil vai bem também, mesmo que não esteja, se a seleção vai mal, tudo vai mal, contudo não se sabe do que vai realmente mal. Essa vinculação da brasilidade com o futebol da seleção é perigosa só nesse sentido, pois ser cidadão de um país não é só torcer por um time ou selecionado.
Mas não quero ser estraga prazer, nem tampouco o pseudo-intelectual que não gosta de futebol, pois eu vou continuar torcendo pela seleção com a mesma intensidade e alienação como qualquer outro brasileiro, afinal somos o único penta campeão de futebol.
E como diz o grande escritor uruguaio Recaro Siambretta: “...haverá o dia em que todas as nações do mundo baixarão suas armas, abolirão seus exércitos, e decidirão todas as pendengas internacionais dentro das quatro linhas de um campo de futebol...”.
E quando esse dia chegar o Brasil será a superpotência que merecemos ser, pois somos os únicos penta...
...e rumo ao hexa.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Deixa Estar

No último dia 08 de maio de 2010, comemoraram-se os 40 anos de lançamento de “Let it be” o último disco (ou álbum, como preferem alguns) dos Beatles. Sei que não é comum se estar comemorando um lançamento de uma obra de arte, muito menos um disco de um conjunto musical, mas há de se convir, que Beatles não é exatamente só um grupo de sujeitos que toca música, ou uma simples banda de rock, e muito menos ainda “Let it be” não é um disco qualquer.
Costumo ouvir Beatles com a mesma reverência com que escuto Bach ou Beethoven, para mim eles estão no mesmo patamar eterno que se confere à música clássica. Aqui caberia uma breve definição do que seria música clássica, pois seria aquele tipo de música que jamais se deixa de ouvir, aquela música que está no imaginário e no inconsciente coletivo de todo o mundo, aquela que se ao se assoviar, qualquer um pode identificar, mesmo que não a conheça inteiramente. Música clássica, não é aquele som de violino chato, música clássica é música eterna, seja ela uma guitarra elétrica ou um oboé.
Beatles, Bach e Beethoven conseguem estender suas melodias pelo tempo/espaço. Até hoje, em pleno século XXI, os acordes iniciais do primeiro da 5ª Sinfonia de Beethoven é associado a suspense. “Jesus, alegria dos Homens” de Bach é padrão de música sacra. E Beatles mesmo sendo bem mais recente são candidatos certos a música eterna, pois quem nesse Planeta Terra não sabe solfejar uma cançãozinha sequer do FabFour. Uma das primeiras músicas que meu moleque de 13 anos cantou na vida foi “Ticket to Ride”, e isso sem qualquer intervenção minha.
Não é todo dia que a gente ver um clássico nascendo, muito menos ainda não é qualquer dia que se ver o ocaso de clássico ou a sua entrada perene nas brumas da eternidade. Como não tive a chance de estar na Viena do Século XIX e ver um Beethoven surdo regendo intuitivamente, e entre lágrimas, sua “Nona”, me resta o Século XX com os quatro caras de Liverpool.
“Let it be” é um disco melancólico, não uma melancolia explícita, e sim uma subliminar, se tem a todo o momento, da primeira a última música a sensação de adeus. A capa escura, mostra fotos de John, Paul, George e Ringo envelhecidos, meio cansados.
“Let it be” fechou uma década, uma década revolucionária que ajudou a humanidade a libertar-se do passado opressor e abrir as portas (da percepção) para um futuro cheio de possibilidades, ou como diria Lulu Santos, com a “habilidade pra dizer mais sim do que não...”. Os anos 1960, dos movimentos libertários, das ditaduras sangrentas e guerrilhas sonhadoras, de Paris e de Praga, da Tropicália e de Woodstock, das revoluções possíveis e das utopias alcançáveis, tudo isso ao som dos Beatles.
Os Beatles e os anos 1960 mudaram o mundo e ambos foram fechados com chave de ouro por “Let it be”, melancolicamente, contudo, inexoravelmente.

retificação

atendendo a pedido da família de Taninha veio aqui dizer que durante sua cruzada contra o terrível carcinoma que lhe abateu, ela teve um susbtancial apoio da prefeitura Municipal de Currais Novos e da liga Norte-riograndense de Cobate ao Câncer

terça-feira, 11 de maio de 2010

...inquietação...

Eu também escrevo sobre o que me incomoda, pois o que me irrita, o que me aborrece, também geralmente me inspira. Mesmo que desagrade a muitos e agrade a poucos, mesmo que ninguém leia, mesmo que estas palavras se percam no tempo e sirvam para enrolar o peixe na feira, ou ainda vá para o lixo ou sirva de proteção para o chão nas pinturas de imóveis. Mesmo que me cassem a palavra ou me tirem a tribuna, tão logo encontraria novas palavras ou uma nova tribuna para exorcizar a indignação nossa de cada dia.
Existe algo que me incomoda profundamente, e creio que não só a mim, mas a boa parte da humanidade também: a morte. Não a morte em si, mas tudo que nefastamente gira em torno dela, e, sobretudo suas causas e conseqüências.
Há alguns dias perdemos uma grande pessoa, uma grande mulher, em todos os sentidos, Tânia Maria Dantas Alves, a quem tive a sorte de conhecer. Sim, sorte, pois conhecer uma personalidade forte e ativa como a de Tânia é uma fortuna. Ela era uma mulher íntegra, mas extremamente brincalhona, alegre, contagiava a todos com sua espiritualidade e espontaneidade. Uma mulher linda, por dentro e por fora. Lamento profundamente não só sua partida, mas, sobretudo lamento não ter tido mais tempo para partilhar de sua amizade.
Tânia padeceu de um terrível carcinoma a que ela bravamente lutou por quase três anos, e pasmem, boa parte do seu tratamento foi custeado por ela própria. Isto é absurdo, inquietante e indignante. Como é que se permite que uma pessoa tire do seu bolso ou contraia dívidas para poder cuidar da própria saúde? Já não bastam o terrível desgaste e o impacto emocional de ter uma doença como esta, ainda ter que se preocupar em arcar com os custos do seu tratamento?
Temos que nos indignar e com razão, e mais que isso, por em nossas cabeças de forma definitiva que é obrigação do Estado prover saúde e tratamento médico de qualidade para todos os seus cidadãos de forma indistinta e para/contra toda e qualquer doença, inclusive carcinomas, sem que estes mesmos cidadãos tenham que tirar um único centavo do bolso. Temos que por em mente que o Estado (digo: município, estado-membro, União) existe, dentre outras coisas, e principalmente, para isto, e temos que berrar, gritar e exigir isto, sem concessões.
É absurdo, mas temos que exigir que o Estado cumpra com sua obrigação, nada mais nada menos, enquanto esse mesmo Estado nos enche de obrigações de impostos, essa equação definitivamente não é justa.
O que nos conforta, por assim dizer, é que pessoas queridas, honradas e dignas como Tânia jamais morrem, muito pelo contrário, estão e estarão sempre presentes, seja nos corações daqueles que, mesmo minimamente, tiveram a oportunidade de se encontrar com ela, como também na presença de seu forte espírito zelando pelos destinos do seu amado filhinho Gustavo.
E se a morte em si não é nada, sendo só um breve interregno para uma existência muito maior; não devemos dar adeus à Tânia, e sim um até-logo.
Até mais, Taninha, a gente se vê por aí...

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Ryoki Inoue, um brasileiro ilustre

O Brasil de fato não conhece o Brasil, e isto nos faz de presa fácil ao interesse imperialista alheio. Temos aqui conosco potencial humano e talentos que nos deixam em pé de igualdade com as nações dita desenvolvidas mundo a fora, e mais, temos um diferencial que só o misto de latinidade, lusitanidade, sangue negro e índio podem dar.
Em suma, temos o que eles têm e, além disto, temos o “algo” mais que a pele morena é capaz de dar.
E mesmo até mesmo o mais “estrangeirófilo” é forçado a crer que nós brasileiro somos, parafraseando aquela música da Pitty, um povo “foda”!
Por exemplo, pouca gente sabe que a pessoa que mais escreveu livros no mundo todo, é um brasileiro.
Escrever um livro, não é uma empreitada fácil, envolve o uso de conhecimento fluente da língua e das formas subjetivas que propiciam a criação de mundos completos para quem ler, envolve uma cultura vasta e, sobretudo, inteligência, perspicácia, sensibilidade e observação da vida e do universo humano. Conheço muita gente de alto gabarito que com muito esforço consegue escrever um, dois ou três livros, e eu que o diga também, pois ainda não consegui sair do primeiro capítulo do meu próprio livro há mais de ano.
Mas José Carlos Ryoki Alpoim Inoue, um brasileiro, escreveu nada mais, nada menos que 1079 livros. Sabe-se lá o que é isso, a dimensão dessa marca. São mil e tantos livros, mil e tantas histórias completas com começo, meio e fim, mil e tantos universos para leitores viajar.
Uma pessoa como Ryoki Inoue, só poderia nascer no Brasil, pois só aqui pode se dar de forma tão harmônica o encontro de dois extremos, o lirismo português com a produtividade japonesa, resultado: o escritor mais prolífero do Planeta Terra.
Os críticos geralmente tentam diminuir esta marca. Alguns dizem que pulp fiction ( o estilo de boa parte deste milhar de livros escrito por Ryoki, com cerca de 39 pseudônimos) é previsível, literatura “inferior”, dentre outras bobagens. Mas daí que se ver que boa parte destes mesmos críticos sequer tem um único livrozinho que seja, nem mesmo um simplório e previsível livro de culinária, só isto já seria suficiente para tirar-lhes a razão.
Outros críticos dizem que quantidade não é qualidade, Marcel Pruost escreveu um único livro em vida, o mesmo se diz de Augusto dos Anjos e Fernando Pessoa. Ariano Suassuna , tem uns cinco ou seis, e por aí vai. Mesmo sem retirar o mérito devido a grandeza e intensidade de um Proust, Fernando Pessoa e seus heterônimos, e, sobretudo Ariano Suassuna. A marca de Ryoki não é desprezível de modo algum, além disto, seus livros são ricos de imagens, força literária, e guardada as devidas proporções, nada deixa a dever a qualquer marco literário nem daqui, nem de alhures.
Deveríamos todos nós brasileiros está plenos de orgulho por dividirmos uma nacionalidade com uma pessoa da dimensão de Ryoki Inoue. E que seus livros sejam mais e mais comprados, lidos, estudados e apreciados, e quiçá num futuro dos meus netos, que ainda nem sonham em nascer, seja, enfim o seu trabalho devidamente reconhecido e tenhamos o seu rosto como uma efígie duma cédula ou moeda, tal Câmara Cascudo, Cecília Meireles ou Drummond já tiveram. Não consigo imaginar homenagem melhor

quarta-feira, 31 de março de 2010

Pot'y'war

Estranho perceber
Que este chão que adotei
Outrora tão rico de vida
Vida própria, não importada de alem mar,
Jaz encharcado de sangue.

Gente caçada feito bicho,
Invasores impiedosos,
Holocausto indígena,
Lusitanos proto-nazistas.

A diferença,
Só que ao invés do “final-feliz” hebreu
Com direito a um estado só deles,
Aqui nada restou, nem a mais longínqua lembrança, nem o respeito,
Somente um ‘nome’ roubado
Potiguar.

sexta-feira, 5 de março de 2010

O fim do mundo

No final do ano passado o filme “2012” foi um dos maiores sucessos de bilheteria, multidões em todo mundo fizeram fila para ver justamente o fim do mundo. Efeitos especiais mirabolantes e uma agressiva campanha de marketing viral contribuíram para o sucesso. Mas o filme em si não é bom não, a história tem mais furo que uma tábua de pirulito e o diretor e roteirista Roland Emmerich seguiu a risca a cartilha hollywoodiana, em outras palavras, é um filme besta, tolo, morno, chato e previsível, e como toda produção americana o herói sempre escapa no fim, mesmo depois de ter “morrido” quase todos os coadjuvantes.
Mas suponhamos, apenas suponhamos, que o filme seja um pressagio, e que os maias e Nostradamus estejam certos. O mundo vai realmente acabar em 21 de dezembro de 2012. Para quem tiver predisposição para crer nisto sinais não vão faltar, os recentes terremotos do Chile e do Haiti, as crises globais, epidemias, gripes suína, bovina, aviária, enchentes e esse calor infernal que a gente sofre todo dia parecem mostrar realmente que chegou o fim dos tempos. É o Armageddon, o apocalipse! Oba!!! Oba!!! Nada mais restaria a não ser viver intensamente os últimos momentos da vida como a gente quer ou acha que deve viver, sem amarras e sem limites, sem se preocupar com as conseqüências nem com o dia depois de amanhã.
Mas calma aí, não deixe de pagar suas contas, nem pense em se declarar àquele amor impossível, nem muito menos dar um murro na cara daquela pessoa que não gosta de você, pois não existe nenhuma evidência clara, patente, efetiva e certa que o planeta vai realmente acabar daqui a dois anos.
Um fim do mundo abrupto e repentino, com data e momento certo, seria muito mais como uma bênção do que com um fardo. Seria como uma eutanásia para um paciente terminal, ou o tiro de misericórdia em animal agonizante, e parece que a humanidade não merece tal alívio. É duro, mas estamos condenados a um lento e doloroso epílogo, nada de dia e hora certo para o fim, e sim, um fim lento, devagar e extremamente sofrido.
Não pensem que o ocaso do homem é fruto da modernidade não. O fim do Homo Sapiens é uma coisa que vem sendo plantado lentamente desde quando nos entendemos por espécie. Mesmo no tempo de Nostradamus, quando ele escreveu suas famosas premonições, no século XV, a Europa vivia a peste negra, que dizimou mais da metade da população, aquilo sim parecia um fim de mundo que foi refletido nas suas centúrias. No México do século XVI, quando os maias fixaram a data final do calendário, viam a chegada dos colonizadores espanhóis com um novo modo de vida que acabou com língua, a cultura e modo de vida típico maia, isto para eles foi um fim do mundo, o mundo Maia. Até mesmo São João quando escreveu o Livro do Apocalipse, vivia-se um momento difícil com os romanos perseguindo os cristãos e destruindo o Segundo Templo de Jerusalém e isto aos olhos de uma pessoa do século I parecia o fim do mundo. E no século XX, com a Guerra Fria entre Rússia e EUA, parecia que o mundo ia acabar a cada 24 horas com um holocausto nuclear. E mesmo diante de tudo isso o mundo não se acabou e sempre houve como vai haver sempre um amanhã, com sol ou chuva, mas sempre repleto de esperanças.
A sorte do mundo, ou do Planeta, é que a cada fim que se anuncia ele renasce cada vez melhor e isto sem precisar das enormes arcas que aparecem no fim do filme “2012” e que salvam o que resta da humanidade para a segurança do continente africano sob a luz do amanhecer.
Esse eterno círculo de renascimento do mundo que vivemos todos os dias só me faz lembrar aquela música de Gilberto Gil: ”...Drão/ o nosso amor é como um grão/ uma semente de ilusão/ tem que MORRER para GERMINAR...”